quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Primeiros Reis Momos negros do Carnaval

A mitologia grega conta que Momo (Reclamação) era uma das filhas que a deusa Nix, personificação da noite, teve sem um pai. Momo, que não gostava de nada, foi escolhida para julgar qual dos deuses, entre Zeus, Poseidon e Atena, poderia fazer algo realmente bom. Zeus fez o Homem; Atena, uma casa, e Poseidon, o touro. Momo criticou o touro, porque não tinha olhos embaixo dos chifres que o permitissem mirar os seus alvos quando fosse dar uma chifrada; o homem, por não ter uma janela no seu coração para que o seu semelhante pudesse ver o que ele estava planejando, e a casa, porque não tinha rodas de ferro na sua base para que fosse movida.

Na Roma Antiga, o mais belo soldado era designado para representar a deusa Momo – a se montar, travestir-se no carnaval, ocasião em que era coroado rei. E durante os três dias da festividade, o soldado era tratado como a mais alta autoridade local, sendo o anfitrião de toda a orgia. Encerrada as comemorações, o “Rei Momo” era sacrificado no altar de Saturno. Posteriormente, passou-se a escolher o homem mais obeso da cidade, para servir de símbolo da fartura, do excesso e da extravagância.

Palhaço Benjamin
Assim, o Rei Momo chega ao Brasil, ao Rio de Janeiro, como homem sem, no entanto, incorporar uma figura específica, até que em 1910, Benjamim de Oliveira - o primeiro artista negro do cinema brasileiro, o primeiro palhaço negro do Brasil e primeiro palhaço negro do mundo (de acordo com o pesquisador Brício de Abreu) - personificou o primeiro Rei Momo negro do país.

(Até isso, tiraram das pessoas nascidas com o sexo feminino: no Carnaval, Momo é um Rei sem rainha, só com princesas. Mas, ok, o espaço é do pioneirismo negro, não do debate de gênero.)

Benjamim de Oliveira, criança ainda quando a Lei Áurea imperava em território nacional, abandonou o lar aos 2 anos e juntou-se à troupe do Circo Sotero, atuando em números de trapézio e de acrobacia.

Resultado de imagem para rei momo benjaminAlém de seus números de clown e acrobacia, Benjamim cantava, atuava e  escrevia peças teatrais. “Minha existência poderia ter ficado encoberta pelas muitas montanhas que encobrem as Minas Gerais se, um dia, uma troupe de circo não tivesse passado por lá”, disse ele um dia.


Benjamin nasceu em Pará de Minas (MG), no dia 11 de junho de 1870. Encerrou sua carreira no circo na década de 1940 e morreu no Rio de Janeiro 3 de maio de 1954.

Sua história foi transformada no livro “Benjamim, o filho da felicidade”, de Heloísa Pires Lima, e faz parte da Coleção De Repente, com histórias de vidas que mudaram da noite para o dia.

Lelé
Em Porto Alegre (RS), o pioneiro é Adão Alves de Oliveira, Lelé, que  reinou entre 1949 e 1952 e que era chamado de Rei Negro.
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Durante entrevista ao Diário Gaúcho, em 2005, Lelé conta como tornou-se Rei Momo da capital gaúcha: “Estava com amigos e resolvi fazer uma brincadeira para arrecadar grana para beber. Fizemos uma coroa de papelão e saímos pela rua”.

E deu mais que certo. No ano seguinte, Lelé foi convidado para ser o primeiro Rei Momo negro de Porto Alegre.

Além de ter agitado o Carnaval, Lelé jogou futebol profissional entre 1943 e 1945, ocasião em que surgiu o apelido, por conta de seu chute igual ao do atacante Lelé, do Madureira, time do Rio de Janeiro.

Lelé morreu aos 88 anos no ano de 2013.

 

Henricão
Na capital paulista, o primeiro rei negro do Carnaval só foi empossado em 1984: Henrique Felipe da Costa, Henricão, compositor nascido em Itapira, no interior de São Paulo, identificado por seus quase dois metros de altura e sorriso cativante.

Resultado de imagem para rei momo henricãoAlém de primeiro Rei Momo negro do Carnaval de São Paulo, compositor, intérprete e ator de cinema e televisão, Henricão foi um dos fundadores da Vai-Vai e autor das primeiras marchas do então cordão carnavalesco.

Entre suas mais de cem músicas, sucessos como o samba-choro “Só Vendo que Beleza” (“Eu tenho uma casinha / Lá na Marambaia…”), em parceria com Rubens Campos; “Sou Eu” (“Se acaso você encontrar / alguém dormindo na rua / coberto com o manto da lua / sou eu…”), e “Está chegando a hora”, marchinha carnavalesca adaptada da música mexicana “Cielito Lindo”.

No mesmo ano que se consagrou pioneiro no Carnaval paulistano, Henricão morreu. Hoje ele é nome de rua e de escola.





terça-feira, 16 de agosto de 2016

Robson Conceição, ouro inédito do boxe brasileiro

Resultado de imagem para robson conceição projeto socialRobson Donato Conceição chegou aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro para escrever uma nova história sobre sua carreira. Depois de ser eliminado duas vezes consecutivas em estreias – Pequim 2008 e Londres 2012 -, sua meta era conquistar uma medalha. Ouro, prata, bronze? Não importava. No final, ele conseguiu a mais brilhante.

Recebido com gritos de "o campeão chegou" pela torcida no Pavilhão 6 no Riocentro, o pugilista venceu o francês Sofine Oumiha na terça-feira, 16 de agosto de 2016, na final da categoria pesos-leves (até 60kg) e tornou-se o primeiro brasileiro campeão olímpico no boxe.

Os dois começaram o primeiro round com uma luta franca. Robson dominou o centro e foi bastante agressivo. No segundo assalto, o francês demonstrou boa velocidade, mas Robson impôs seu jogo, com reflexo apurado e superioridade inquestionável, investindo em golpes mais potentes. No último round, administrou a vitória já garantida por pontos.

Os confrontos
Foram três lutas até Robson Conceição chegar à final da competição. Na estreia, enfrentou Anvar Yunusov, do Tadjiquistão, e o venceu por nocaute técnico. Na sequência, nas quartas-de-final, superou Hurshid Tojibaev, do Uzbequistão, com vitória por decisão unânime dos jurados (30-27/30-27/29-28), avançando para a semifinal com o terceiro lugar garantido – no boxe não existe disputa pelos terceiro e quarto lugares, o terceiro lugar é compartilhado.

Mas Robson Conceição acalentava sonhos mais ambiciosos, além de uma medalha de bronze olímpica: ele, quinto colocado no ranking da Associação Internacional de Boxe Amador, queria enfrentar o líder e tricampeão mundial na divisão, Jorge Lázaro Alves, de Cuba.

No confronto, Robson ganhou de Lázaro no último assalto, depois de dois rounds equilibrados – com vitória do cubano no primeiro e do brasileiro no segundo. Mesmo com o supercílio aberto e tendo que parar duas vezes durante o combate para estancar o sangramento, Robson cresceu no minuto final do terceiro round e encaixou uma sequência de golpes que lhe garantiu a vitória: “Senti que eu podia fazer mais, muito mais e ir para cima. E essa foi a grande virada da luta”.

Garantida sua participação na final, o pugilista escolheu “manter o pé no chão, a humildade, o foco, descansar e se concentrar para a próxima luta”, o que deu muito certo: com seus 27 anos, venceu o jovem francês de 21 anos, estreante em Olimpíadas, por decisão unânime dos jurados (30-27, 29-28 e 29-28).

Preparação para a vitória
Resultado de imagem para robson conceição projeto socialNa noite anterior às suas lutas, Robson Conceição costuma ficar sozinho,  mentalizando os golpes que irá desferir. Tudo para manter o foco.

Outro hábito é ouvir música evangélica nos dias que precedem o combate e minutos antes de subir no ringue. Ele não é evangélico, acredita em Deus, no poder motivador do gospel para lhe dar inspiração e em São Lázaro.

Robson descobriu também na judoca Rafaela Silva, medalha de ouro na categoria leve nas Olimpíadas do Rio, sua principal inspiração. “Ela também veio de baixo, da favela, como eu, e nada melhor que tê-la como referência e seguir seu exemplo” – o pugilista foi criado em São Caetano, bairro pobre de Salvador (BA).

História
Robson Donato Conceição nasceu em 25 de outubro de 1988, é sargento na Marinha e, desde os 14 anos, viaja para disputar campeonatos de boxe, enfrentando dificuldades e barreiras que não gosta de lembrar.

Criado por sua mãe, Robson vibrou com a presença da família no Pavilhão 6 - incluindo esposa Érica e a pequena Sofia, sua filha de dois anos -  e dedicou a elas o ouro olímpico.

E, assim, o garoto, que chegou ao boxe pensando em ganhar brigas de rua no carnaval de Salvador, evoluiu e, hoje, se destaca no hall de pugilistas nacionais e se prepara para buscar o cinturão mundial como pugilista profissional.

Robson Conceição é voluntário em um projeto que ensina boxe para jovens e adultos da comunidade de Boa Vista de São Caetano, na periferia de Salvador, onde nasceu.


Fontes: Uol, ESPN, Wikipedia, Folha de S. Paulo, http://www.mg.superesportes.com.br 

Isaquias Queiroz: primeira medalha Olímpica da canoagem brasileira e primeiro brasileiro a ganhar três medalhas em uma só edição das Olimpíadas

Resultado de imagem para isaquias queirozO baiano Isaquias Queiroz dos Santos deu à canoagem brasileira na terça-feira, 16 de agosto de 2016, a primeira medalha em Jogos Olímpicos, ao cruzar a linha de chegada em 3min58s529, na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. E mais: na continuidade das Olimpíadas do Rio, a conquista de mais uma medalha de prata e outra de bronze, tornou-o o primeiro brasileiro a ganhar três medalhas em uma só edição dos Jogos.

Ao conquistar a primeira prata, o baiano de Ubaitaba, lembrou seus 22 anos, e falou de seu sentimento: "Eu sou novo ainda. É minha primeira Olimpíada e estou muito feliz com o resultado. Estou satisfeito pela prata, que tem um gosto de ouro porque eu estou em casa e treinei com afinco para conquistá-la".

No mínimo, nosso pioneiro, participará dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020, onde buscará outras medalhas que o credenciarão a ser um dos maiores atletas da história do nosso país.
O canoísta já era esperança de medalhas para o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Realizou bons campeonatos mundiais, quase sempre subindo no pódio. Mas, ainda assim, surpreendeu até quem convive com ele na modalidade.

— Quem acompanhou o Isaquias, com três medalhas, viu que a canoagem brasileira atingiu um nível muito alto. Até quem está dentro do esporte não esperava acontecer isso agora — relata Jonatan Maia, ex-atleta e supervisor do programa Remadas Solidárias.

Medalha a medalha
Isaquias conquistou medalhas em todas as modalidades das quais participou: prata na Canoa Individual (C1) 1.000m; bronze na Canoa Individual (C1) 200m e prata na Canoa de Dupla (C2) 1.000m, com Erlon de Sousa Silva.

Resultado de imagem para isaquias queirozO brasileiro disputou a liderança da prova C1, 1.000m, durante todo o percurso, com o alemão Sebastian Brendel, que abriu distância nos metros finais e ficou com ouro, com o tempo de 3min56s926.

"O alemão é um cara muito bom, todos os jornalistas e o pessoal do Brasil sabiam disso. Ele não é imbatível, nenhum atleta é imbatível. Mas ele teve mérito, ganhou pela dedicação. Na próxima, eu vou treinar muito mais, estarei muito melhor em Tóquio", afirmou Isaquias ao término da competição.

“Do começo ao fim, foi a melhor corrida da minha vida. O brasileiro foi muito duro, foi intensa a competição", devolveu o bicampeão olímpico.


TRAJETÓRIA
Fora da água, a “Lenda da Canoagem” ou “Centauro das Águas” – como escreveu a imprensa -, também traz uma história de vida de superação.

Além da pobreza extrema, Isaquias sobreviveu ao derramamento de uma panela de água escaldante sobre seu corpo, o que o deixou quase um mês internado, e a uma hemorragia interna que, desde os 10 anos, o faz viver com apenas um rim.

O canoísta baiano aprendeu a remar aos 11 anos nas águas do Rio das Contas em Ubaitaba (BA), que em tupi-guarani significa "Cidade das Canoas".  

Descoberto em um projeto social em sua cidade natal, conquistou sua primeira vitória como campeão mundial júnior do C1 200 m.

O pódio olímpico coroa um ciclo excepcional de Isaquias, no qual foi laureado em todos os Campeonatos Mundiais dos quais participou, em 2013, 2014 e 2015, incluindo os dois ouros nos Jogos Pan-Americanos de Toronto.

Aprendendo com os erros
No Mundial de Canoagem de Moscou, em 2014, ele liderou boa parte da prova do C1 1.000 mas a 50 metros da linha de chegada perdeu o equilíbrio e deixou a canoa virar perdendo o ouro para o mesmo Sebastian Brendel. Ano passado, no Mundial na Itália, errou feio na saída, mas conquistou o bronze.

Mais experiente, dessa vez Isaquias garante estar pronto para chegar ao topo do esporte e parar de nadar contra a corrente da vida: “O pessoal achava que eu não ia muito longe pelo fato de só ter um rim, mas mostrei que não tenho problema nenhum e sou campeão mundial. Vai muito da vontade do atleta querer e sempre tive essa vontade. Quero sair daqui com três medalhas no peito”.

E esta é uma possibilidade real: Isaquias, nestas Olimpíadas, vai disputar ainda duas modalidades na canoagem de velocidade: a canoa individual de 200m e a canoa dupla de 1.000m. De qualquer modo, ele já integra a galeria de pioneiros negros com a conquista da prata para o Brasil na canoagem de velocidade na categoria canoa individual 1.000m, a mais longa disputa individual que consta do programa olímpico.

https://entretenimientobit.com/interesse-geral/podio-triplo-nos-jogos-do-rio-rende-r-132-mil-de-bonificacoes-a-isaquias-queiroz/